QDENGA®: Uma nova arma no combate à dengue no Brasil
- Jornal A Sístole
- 25 de mai. de 2023
- 4 min de leitura

Por: Leandro dos Santos de Oliveira
A dengue é uma das arboviroses mais frequentes no Brasil, considerada endêmica no território nacional. Em intervalos de cerca de 4 a 5 anos, a doença transmitida pelo mosquito Aedes aegypti apresenta um aumento explosivo no número de casos, internações e mortes, configurando-se como uma epidemia. É esse cenário mais grave que o país teme enfrentar no momento: segundo relatórios do Ministério da Saúde, os casos de dengue em janeiro-março/2023 aumentaram mais de 53% em todo o país, se comparado com o mesmo período em 2022. São cerca de 584 mil casos prováveis da doença em apuração e 173 mortes confirmadas, segundo dados de 07 de abril de 2023. O cenário atual é precedido pelo ano mais letal da dengue no Brasil de acordo com a série histórica: um acumulado de 1.016 mortes em 2022.
A dengue é um desafio à saúde pública: seja pela dificuldade de controlar a reprodução do vetor num ambiente tropical, pelo quadro clínico debilitante – gerando ausências profissionais e escolares, por exemplo, durante o curso da doença – ou pelos falecimentos decorrentes de complicações da patologia. Mas, em meio a tantos revezes, uma boa notícia: em 02 de março de 2023, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) aprovou o registro da Qdenga, uma vacina contra a dengue que promete alterar a história dessa doença no Brasil. O Jornal A Sístole trará mais informações sobre a vacina, como ela funciona, para quais grupos ela é indicada e como está sua disponibilidade.
A QDENGA® é uma vacina para a prevenção da dengue indicada para indivíduos de 4 a 60 anos de idade. Ela foi desenvolvida com a tecnologia de vírus atenuado recombinante quimérico: utilizou-se um dos sorotipos do vírus da dengue (DENV-2), no estado atenuado, e adicionados genes ligados à produção de antígenos de todos os quatro sorotipos virais da dengue. Noutras palavras, isso permite que o imunizante provoque resposta imune contra todos os vírus capazes de causar a doença.
19 testes clínicos envolvendo mais de 28 mil crianças e adultos, foram realizados com a QDENGA®, e os resultados são animadores: a vacina preveniu 80,2% dos casos sintomáticos de dengue e 90,4% das hospitalizações, 12 e 18 meses após a vacinação, respectivamente. Tais percentis se referem tanto a indivíduos soropositivos (que já contraíram dengue no passado) quanto soronegativos (que ainda não haviam contraído dengue), valores que, por si só, já justificam o registro da vacina.
A ANVISA ressalta, porém, que sua eficácia varia entre os sorotipos, sendo satisfatória no caso do DENV-1 e DENV-2, e adequada apenas em indivíduos soropositivos no caso do DENV-3. Não houve número de casos de DENV-4 suficientes para estimar a eficácia do imunizante. No Brasil, felizmente, os sorotipos 1 e 2 são os mais comuns. A vacina apresenta boa tolerância e não há riscos de segurança até o momento.
Este é o primeiro imunizante contra a dengue aprovado no país que pode ser aplicado para um público mais amplo em termos de faixa etária e estado sorológico. Em 2015, a vacina Dengvaxia foi aprovada pela ANVISA, mas era recomendada apenas para indivíduos soropositivos (que já tiveram dengue) e moradores de áreas endêmicas, o que restringia muito sua utilização em campanhas de saúde pública.
Apesar da aprovação da QDENGA®, a comercialização da vacina ainda precisa ser avaliada pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos, órgão governamental responsável pela precificação do imunizante. Essa etapa dura cerca de 3 meses e, daí em diante, a vacina poderá ser vendida no país. Já para que o SUS a incluísse no Programa Nacional de Imunizações (PNI), ela precisaria ainda do aval da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde, a Conitec. Só então a vacina seria distribuída na rede pública. O Ministério da Saúde afirma em nota que a incorporação da QDENGA® no PNI é “uma prioridade”.
Em conclusão, o novo imunizante aprovado pela ANVISA é suficientemente eficaz para seu uso na população brasileira, seguro e apresenta grande potencial de inclusão no PNI. Certamente, a vacina pode se tornar um ponto de virada no combate à dengue num futuro próximo, mas medidas de prevenção consagradas - como evitar focos de água parada em domicílio, utilizar repelentes, cobrir janelas e portas com telas, dentre outras - são tão importantes quanto para conseguir maximizar a proteção contra a dengue e devem ser implementadas no cotidiano. A previsão do lançamento da QDENGA® no mercado brasileiro é para o segundo semestre de 2023.
Referências :
● ANVISA. Anvisa aprova nova vacina contra a dengue. Gov.br, 02 de março de 2023. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-
br/assuntos/noticias-anvisa/2023/anvisa-aprova-nova-vacina-para-a-dengue. Acesso em: 10 abr. 2023.
● BIERNATH, A. Nova vacina contra dengue aprovada no Brasil representa o fim de epidemia histórica? BBC Brasil, 21 de março de 2023. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c97xey0v4g9o. Acesso em: 10 abr. 2023.
● FIOCRUZ MINAS. Dengue, Belo Horizonte, 2013. Disponível em: https://blog.mettzer.com/referencias-bibliograficas-normas-abnt/. Acesso em: 10 abr. 2023.
● PAGNO, M.; PUTINI, J. 75% dos municípios brasileiros registram casos de dengue em 2023. G1, 07 de abril de 2023. Disponível em:
https://g1.globo.com/saude/noticia/2023/04/07/75percent-dos-municipios- brasileiros-registram-casos-de-dengue-em-2023.ghtml. Acesso em: 10 abr. 2023.
● Biswal S, et al. Efficacy of a tetravalent dengue vaccine in healthy children and adolescents. N Engl J Med. 2019; 2019;381:2009-2019.
● Biswal S, et al. Efficacy of a tetravalent dengue vaccine in healthy children aged 4-16 years: a randomized, placebo controlled, phase 3 trial. Lancet. 2020. 2020;395:1423-1433.
● Tricou, V. Efficacy and Safety of Takeda’s Tetravalent Dengue Vaccine Candidate (TAK-003) After 4.5 Years of Follow-Up. Presented at the 8th Northern European Conference of Travel Medicine; June 2022.
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