ATLETAS TRANSGÊNEROS NO ESPORTE PROFISSIONAL
- Jornal A Sístole
- 19 de set. de 2023
- 5 min de leitura

Texto por: Beatriz Galhardi
- O cenário atual, qual é?
Abordar a participação de atletas transgênero no esporte profissional é complexo e delicado. Constantemente, a discussão se concentra nas mulheres transgênero, as opiniões divergem e os estudos mostram-se insuficientes para resolução desse embate.
Tratando-se do maior evento esportivo do mundo, os Jogos Olímpicos, é nítida tanto a sua divisão historicamente binária como a lentidão na inclusão das mulheres em todas as modalidades. O boxe feminino, por exemplo, só passou a ser disputado na edição de Londres 2012. Levando em consideração a história do esporte, hoje pode-se levantar a hipótese de que as novas restrições impostas às atletas transgênero estariam apenas mantendo barreiras e limites das mulheres no esporte?
Atualmente, os trangêneros vêm lutando pela participação nos esportes mundiais de elite. Dificilmente encontramos oposições à inclusão dos atletas homens transgênero, que acabam tendo maior passabilidade (mais fácil de serem percebidos como homens cisgênero) e não são vistos como uma ameaça ao esporte masculino.
Em meio a uma sociedade enraizada no machismo, o esporte masculino ainda é visto, muitas vezes, como superior ao feminino. Essa mentalidade gera embasamento, por exemplo, para a ideia de que uma atleta que anteriormente competia no masculino performaria de maneira muito acima da média no feminino, conferindo certa injustiça. Por outro lado, a inclusão ou exclusão de atletas transgênero e a garantia da competitividade dentro de cada categoria não deve ser baseada puramente em crenças ou achismos.
Sob outra perspectiva, vale indagar quem discute essa pauta: são as pessoas que se preocupam ativamente com o esporte feminino ou as que sentem-se atingidas apenas com a questão do gênero? Há luta também pela diferença de investimento, de condições, de estruturas, de comissão técnica?
A transfobia existe fora das quadras e das competições, mas pode aparecer em comentários, em regras excludentes (sem bases científicas) e até mesmo na forma de desqualificação dos resultados esportivos, por exemplo, quando uma atleta trans se destaca em alguma competição e associa-se seu desempenho a uma suposta vantagem física hormonal.
- Quais seriam essas tais vantagens e o que dizem os estudos?
A inexistência de estudos publicados que esclareçam a associação entre idade do início e regularidade da terapia hormonal cruzada (terapia de ajuste das características sexuais secundárias em congruência com a identidade de gênero do indivíduo) com qualquer tipo de vantagem esportiva das mulheres trans em relação às mulheres cis é de extrema importância para o debate. Muitas variáveis além dos valores de testosterona devem ser levadas em consideração para uma eventual tomada de decisão, por exemplo: quando foi iniciada a terapia hormonal, por quanto tempo foi mantida e com qual regularidade, como o corpo reagiu à terapia, se houve realização de cirurgia de remoção gonadal.
Segundo o Canadian Centre for Ethics in Sport (CCES), não existem evidências científicas que comprovem que mulheres transgênero possuem alguma vantagem nos esportes. Porém, há literaturas que confirmam uma diferença significativa de índice de massa magra, de volume muscular e de força entre mulheres trans e mulheres cis no esporte. De acordo com o CCES, esses estudos apresentam alguns impasses metodológicos, como o tempo de acompanhamento muito curto para definir efeitos a longo prazo da transição nos corpos, a análise de pessoas transgênero não atletas, o uso de técnicas imperfeitas de medição e a comparação com amostra populacional também sedentária/não atleta. Da mesma forma, o relatório canadense expoe que não existe evidência de que essas diferenças se traduziriam em qualquer vantagem de performance esportiva em comparação com atletas cis-mulheres de elite de peso e altura semelhantes.
Vale ressaltar também a dificuldade de definição de o que seriam essas supostas vantagens, uma vez que vantagem e bom desempenho significam parâmetros diferentes em cada esporte. Nesse quesito, é possível valorizar a ideia de as avaliações serem realizadas especificamente por cada esporte, como prevê a nova regra do COI (Comitê Olímpico Internacional).
Com resultados inconclusivos na comunidade científica sobre a ausência ou existência de vantagens físicas e performáticas, podemos encarar como algo de suma importância a produção de novos estudos sem vieses discriminatórios, com amostras representativas (quantitativa e qualitativamente), em estudos multicêntricos (com diversas organizações de esportes internacionais) para conclusões mais próximas da realidade e com mínima injustiça possível.
Por fim, muito se fala sobre a biofisiologia, mas pouco é abordado sobre o aspecto sociocultural desses atletas, que enfrentam estigmatização e discriminação, dificuldade de acesso a recursos esportivos (como treinamento, instalações e equipamentos), falta de inclusão e aceitação por parte de treinadores, colegas de equipe, fãs, entre outros fatores que desempenham um papel crítico em seu bem-estar e desempenho esportivo.
- Quais são as políticas esportivas mundiais atualmente?
Desde 2015, o Comitê Olímpico Internacional permite que homens trans possam competir sem nenhuma restrição. A última declaração oficial do COI foi a publicação das “Diretrizes do COI sobre Justiça, Inclusão e Não Discriminação com Base na Identidade de Gênero e Variações de Sexo”. Nela:
As atletas mulheres transgênero devem demonstrar que seus níveis de testosterona estão abaixo de um determinado limite específico (10 nmol/L) por pelo menos 12 meses antes de sua primeira competição.
As atletas mulheres transgênero devem estar em conformidade com sua identidade de gênero declarada por pelo menos quatro anos antes de competir. Isso inclui viver e competir de acordo com essa identidade de gênero.
Em alguns casos, as atletas podem ser solicitadas a fornecer documentação legal, como um passaporte ou identidade de gênero reconhecida pelas autoridades competentes, para confirmar sua identidade de gênero.
Cada esporte e organização esportiva pode ter suas próprias políticas e diretrizes relacionadas à participação de atletas transgênero, que podem variar em relação às diretrizes do COI.
Nesse âmbito, mostra-se que o mundo esportivo está longe do consenso sobre a participação de atletas transgênero em competições. Para exemplificar, enquanto a Federação Internacional de Natação (Fina), restringe a participação apenas às mulheres trans que completaram sua transição até os 12 anos de idade, a Federação de Futebol da Alemanha (DFB), busca tornar a modalidade mais inclusiva, permitindo que os atletas transgênero decidam em qual equipe atuar, se registrados como “diverso” ou “não identificado”.
- O que podemos esperar para o futuro?
Em meio a tantas incertezas, devemos sempre partir em busca de uma sociedade e um mundo esportivo inclusivo, que enxergue os seres humanos sob seus diversos aspectos. Para isso, pesquisas com grupos populacionais equivalentes e medidas confiáveis são imprescindíveis para a formação de uma base de evidências científicas atualmente inexistente. A partir de então, novas políticas podem ser pensadas e implementadas, considerando os contextos socioculturais dessa minoria, para que se alcance o máximo de equilíbrio entre a equidade e a inclusão.
“O esporte é um produto social. Se a sociedade criou, ela também pode reformular" – Rafael Marques Garcia, professor de Educação Física da UFRJ
REFERÊNCIAS:
Transgender Women Athletes and Elite Sport: A Scientific Review Executive Summary ........................................................................................................................ 1. [s.l: s.n.]. Disponível em: <https://www.cces.ca/sites/default/files/content/docs/pdf/transgenderwomenathletesandelite sport-ascientificreview-e-final.pdf>.
COUTINHO, S. R. Transgêneros nos esportes – Conexão UFRJ. Disponível em: <https://conexao.ufrj.br/2022/07/transgeneros-nos-esportes/>.
Podcast Café da Manha: “Pessoas trans no esporte: o que dizem atletas e estudos”
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