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O que está por trás da memória?

  • Foto do escritor: Jornal A Sístole
    Jornal A Sístole
  • 8 de ago. de 2023
  • 4 min de leitura



Por Karine M. Corrêa


A memória e suas nuances são pontos cruciais na nossa formação enquanto indivíduos e, também, enquanto sociedade. A construção da nossa identidade é pautada por sentimentos, crenças e, principalmente, por experiências vividas e pela forma como as interpretamos. Por ser algo tão essencial, inúmeras perguntas surgem a seu respeito: como as memórias são criadas? Como o nosso cérebro define o que será lembrado e o que será esquecido? Existe limite para a memória? Não necessariamente teremos respostas para todas essas perguntas, mas o Jornal “A Sístole” se propõe, aqui, a elucidar alguns dos mistérios por trás desse tema.


Para começar a discussão, o primeiro passo é entender o que a neurociência sabe sobre a formação e consolidação da memória. O processamento dela pode ser dividido em três etapas: aquisição, consolidação e evocação. A aquisição representa a chegada da informação ao sistema nervoso central, por meio de estruturas sensoriais que transportam o estímulo recebido ao cérebro.


A consolidação equivale ao armazenamento da informação, ou seja, a criação da memória em si. Esse processo pode ocorrer através de alterações bioquímicas ou de fenômenos eletrofisiológicos. Quando determinados conjuntos de neurônios continuam disparando por alguns segundos na tentativa de memorizar algo novo e produzindo uma retenção temporária da informação, estamos diante dos fenômenos eletrofisiológicos. De outro modo, quando a retenção da informação ocorre através de alterações estruturais ou funcionais no sistema nervoso central, estamos falando sobre os fenômenos bioquímicos. Isso implica que a consolidação da memória só é possível pela neuroplasticidade, ou seja, pela capacidade do cérebro de se transformar diante dos estímulos do ambiente. Na amnésia causada pelo Alzheimer, o que acontece é que as recordações, quando consolidadas, são armazenadas de forma dispersa pelo córtex e, na doença, ocorre a deposição excessiva de proteínas anômalas no cérebro, interferindo na transmissão de informações.


Com a consolidação, a evocação torna-se possível, sendo que esse retorno de informações armazenadas pode ocorrer de forma voluntária ou involuntária. O córtex pré-frontal do cérebro é o principal responsável pela organização da memória em uma sequência temporal e a dopamina é um neurotransmissor importante nesse contexto. No entanto, embora haja teorias em estudo, a neurociência ainda não consegue explicar exatamente como esse processo de evocação ocorre.


Mas as memórias são todas iguais? A forma como o nosso cérebro retém informações com carga emocional associada e habilidades motoras, por exemplo, é a mesma? Para facilitar a compreensão, pesquisadores dividem-na em diferentes classificações.


A memória sensorial é o resultado de retenção de informação oriunda através de estímulos recebidos pela visão, audição, olfato, paladar, tato e propriocepção. É de curta duração, produzida pelo fenômeno elétrico e de caráter pré-consciente (ou seja, quando vemos um objeto, por exemplo, a informação fica gravada por segundos no córtex visual antes mesmo de termos consciência da imagem).

A memória de trabalho é, também, uma memória rápida, em que a informação está disponível enquanto é necessária. Um exemplo clássico é quando decoramos temporariamente um número telefônico e, após utilizarmos a informação, já não nos recordamos mais do número. Para além disso, essa também se associa com a contextualização do indivíduo e gerenciamento das informações que estão chegando ao sistema nervoso. Isso porque ela compara as novas informações com informações antigas (de longo prazo), participando, assim, do processo de evocação, organizando essas ideias em uma sequência temporal coerente.


Por fim, a memória de longa duração é a capacidade de reter informações por longos períodos - meses, anos ou décadas. Esse processo dura, em média, três a oito horas e está associado a determinadas fases do sono, o que implica que noites bem dormidas são essenciais para a sua memória. Outros fatores também influenciam, como: atenção, motivação, estresse e estado emocional. O hipocampo é a região do cérebro onde ocorre a consolidação delas, assim, lesões hipocampais produzem uma amnésia anterógrada - a pessoa se recorda das lembranças antigas, mas não forma as novas, como a personagem de Drew Barrymore no filme “Como se fosse a primeira vez”.


A memória de longa duração pode ser subdividida em declarativa (consciente) e não declarativa (subconsciente). A primeira forma inclui a memória episódica, que representa os momentos da nossa vida que, juntos, formam a nossa autobiografia; e a memória semântica, responsável pelo armazenamento de fatos (conhecimentos biológicos, símbolos, etc). Aparentemente, essas duas formas da lembrança declarativa estão relacionadas a diferentes áreas cerebrais e, por isso, é possível que doenças acometam apenas uma delas. Já a não declarativa pode ser subdividida em outras formas, incluindo a motora, que é a capacidade de executar procedimentos e habilidades motoras de forma automática após inúmeras repetições (como dirigir ou tocar um instrumento).


Por fim, é importante ressaltar que a memória pode ser falha. Lembranças são esquecidas total ou parcialmente e podem ser, também, distorcidas. Imagine como seria conviver com reminiscências de experiências triviais que você viveu. O russo Salomão Shereshevsky ficou conhecido por ser “o homem que não esquecia” e, como consequência do fluxo excessivo de informações, ele desenvolveu dificuldade em interações sociais, uma incapacidade de relaxar, além de outras limitações cognitivas. A princípio, não há limites para a memória, no entanto lembrar demais seria exaustivo. Desse modo, ao terminar esse texto, você possivelmente não se recordará de tudo o que foi dito, mas o que for relevante para você ficará retido, e isso é o extraordinário da memória.



REFERÊNCIAS

1. Mourão Júnior CA, Faria NC. Memória. Psicol Reflex Crit [Internet]. 2015 Oct;28(4):780–8. Available from: https://doi.org/10.1590/1678-7153.201528416

2. Kandel, E. R. Princípios de Neurociências. Porto Alegre: AMGH, 2014.

 
 
 

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