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Etarismo: a violência contra o nosso próprio futuro

  • Foto do escritor: Jornal A Sístole
    Jornal A Sístole
  • 1 de jun. de 2023
  • 4 min de leitura



Por Wallace Soares


“Você não tem mais idade para isso”. “Ela tem 40 anos já. Era para estar aposentada”. ``Com 50 anos, ninguém vai chamar para processos seletivos``. Nos últimos anos, embora a expectativa de vida do brasileiro tenha aumentado substancialmente para 76 anos, sobretudo com a ampliação do acesso à saúde e à informação, frases como essas se tornaram cada vez mais frequentes, o que revela uma problemática social frequentemente invisível e pouco debatida: o etarismo.

Segundo o Relatório Mundial sobre o Idadismo da Organização Mundial da Saúde (OMS), o etarismo, ageísmo ou velhofobia pode ser entendido como um preconceito de idade, manifestado principalmente por meio de intolerâncias, discriminações e estereótipos associados às pessoas de idade mais avançada, ou seja, aos idosos. Essa forma de preconceito se baseia em ideias negativas e incapacitantes sobre o envelhecimento, o que invalida diferentes possibilidades de vivências legítimas pelos mais velhos, que podem – e devem – ocupar os mesmos espaços sociais dos mais jovens. Assim, pessoas na terceira idade se sentem oprimidas, rejeitadas e, não raras vezes, abandonadas, situação que suscita o desenvolvimento de transtornos mentais e quadros depressivos.

Atualmente, de acordo com o IBGE, os idosos correspondem a quase 15% da população brasileira, entretanto, apesar das projeções de aumento da longevidade, são vítimas constantes do etarismo. Para a antropóloga Mirian Goldenberg, existe um pânico velado de envelhecer no Brasil, agravado por elementos culturais que supervalorizam os rostos e os corpos jovens, vistos como símbolos de beleza, vitalidade e produtividade. Dessa forma, os mais velhos sofrem uma "morte simbólica", pois são tratados por uma parcela da sociedade como pessoas improdutivas, dependentes e sem autonomia.

Além disso, na visão da médica geriatra Ivete Berkenbrock, o etarismo tem profundas consequências no cotidiano dos idosos. Isso acontece porque muitos espaços dificultam a acessibilidade - como comércios, serviços e locais para a prática de atividade física - logo, há comprometimento da qualidade de vida dessas pessoas que são tolhidas de realizar atividades corriqueiras e, muitas vezes, essenciais para a promoção do bem-estar.

Uma outra questão a ser pontuada é que, como as pessoas vivem mais tempo e com mais saúde, também permanecem no mercado de trabalho por um período mais duradouro e, por isso, maiores são as chances de serem vítimas do etarismo. Em um estudo de Posthuma et al. (2012), diversos estereótipos negativos de idade foram reconhecidos no ambiente laboral, como a suposição de que os trabalhadores mais velhos possuem baixa produtividade, dificuldade de aprender novas habilidades e maior resistência a mudanças. Entretanto, os autores destacam que há poucas evidências empíricas de que o desempenho no trabalho reduz à medida que o trabalhador envelhece, sendo a idade menos importante para o desempenho do que as habilidades individuais e o estado de saúde geral.

Como visto, o etarismo endossa o pensamento de que o envelhecimento é intrinsecamente negativo ao limitar as potencialidades da existência humana. Nesse sentido, esse preconceito propaga uma visão acrítica e deturpada derivada da ideia superficial de que a senescência necessariamente implica perda das funções fisiológicas – manifestadas, por exemplo, pelo declínio das capacidades físicas, cognitivas e aumento do risco de desenvolvimento de doenças crônicas e degenerativas. Ora, na verdade, por mais que o envelhecimento seja inevitável, é um processo natural inerente ao ciclo de vida humano, podendo ocorrer de maneira saudável, ativa e com muitos aspectos positivos associados.

Nessa perspectiva, a terceira idade pode ser entendida também como um período de ressignificação, em que há ampliação da sabedoria pelo acúmulo de experiências vividas e maior aquisição de maturidade emocional, o que se reflete em atitudes positivas de apreciação e valoração da vida. Dessa forma, para a antropóloga Mirian Goldenberg, os idosos manifestam uma imensa gratidão por estarem vivos, pois tudo o que fizeram e ainda fazem para se manter saudáveis e lúcidos faz com que a vida tenha ainda mais valor.

Em suma, portar-se contra o etarismo é uma questão não só de humanidade, mas também de justiça e equidade. Negar o envelhecimento de outras pessoas, discriminando-as simplesmente por serem mais velhas, é negar o nosso próprio futuro, pois todos seguiremos pelo mesmo caminho. A velhice, portanto, não é estagnante, redutora ou findável, mas sim uma nova dimensão da existência que deve ser valorizada e celebrada.


Referências:

● GARCIA, A.; AMARAL, T.; RACIUNAS, C. O que é etarismo e como a discriminação por idade impacta a vida de idosos. CNN Brasil. Disponível em: <

https://www.cnnbrasil.com.br/saude/o-que-e-etarismo-e-como-a-discriminacao-por- idade-impacta-a-vida-de-idosos/>. Acesso em: 07 de abril de 2023.

● HANASHIRO, D. M. M.; PEREIRA, M. F. M. W. M. O etarismo no local de trabalho: evidências de práticas de “saneamento” de trabalhadores mais velhos. Revista Gestão Organizacional, v. 13, n. 2, p. 188-206, 2020.

● MORAES, C. L. et al. Violência contra idosos durante a pandemia de Covid-19 no Brasil: contribuições para seu enfrentamento. Ciência & Saúde Coletiva, v. 25, p. 4177-4184, 2020.

● POSTHUMA, R. A.; WAGSTAFF, M. F.; CAMPION, M. A. Age stereotypes and workplace age discrimination. In: BORMAN, W.C.; HEDGE, J. W.;. (Eds.). Oxford Handbook of Work and Aging. New York: Oxford University Press, 2012, p. 298-312.

● SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA. O que é etarismo e qual seu impacto na vida do idoso? Disponível em: <https://www.sbgg- sp.com.br/o-que-e-etarismo-e-qual-seu-impacto-na-vida-do-idoso/>. Acesso em: 08 de abril de 2023.

● VILA-NOVA, C. Etarismo: 'Sou formado e pós-graduado, mas desde 2020 busco

emprego'. Folha de São Paulo. Disponível em: < https://www1.folha.uol.com.br/paineldoleitor/2023/03/etarismo-sou-formado-e-pos- graduado-mas-desde-2020-busco-emprego.shtml>. Acesso em: 07 de abril de 2023.


 
 
 

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