Epônimos da área da saúde e a história por trás de cada um
- Jornal A Sístole
- 4 de jul. de 2023
- 4 min de leitura

por Julia Rocco
Do grego, epônimo significa “aquele que cede o nome” e, dessa forma, são termos que utilizam o nome de alguma pessoa para designar diversos campos da área da saúde, como doenças, síndromes, estrutura do corpo humano, além de técnicas cirúrgicas e sinais clínicos. Normalmente, eles são uma forma de homenagear aqueles pioneiros no processo de descrição. Assim, devido a sua alta prevalência no cotidiano, decidimos explorar um pouco mais a origem de alguns epônimos famosos na área da saúde.
1- Doença de Alzheimer/ Mal de Alzheimer:
Um epônimo bem conhecido se refere a essa doença neurológica, caracterizada pela perda progressiva de funções cognitivas. Sua origem vem do psiquiatra alemão Alois Alzheimer, o qual acompanhou o caso de uma paciente de 51 anos que desenvolveu alterações de memória e desorientação. Quando essa paciente veio a falecer, Alzheimer analisou os tecidos cerebrais e encontrou modificações celulares.
Novamente, alguns anos depois, o médico acompanhou a autópsia de outro paciente, em que percebeu alterações nas células de forma semelhante a da primeira paciente. Assim, devido à capacidade de correlacionar achados clínicos e histopatológicos, a doença recebeu seu nome, sendo o epônimo usado pela primeira vez em 1910.
2- Mal de Parkinson:
Esse epônimo vem do cirurgião inglês James Parkinson, o primeiro a descrever essa doença em um trabalho de 1817. Neste, o médico descreve a condição como “tremores involuntários, com diminuição da força muscular (...) com sentidos e intelectos não afetados”. Mas, de fato, o epônimo só foi estabelecido depois de 60 anos, por outro médico, que também se dedicou ao estudo da doença.
3- Síndrome de Down:
John Langdon Haydon Down, médico na maior Instituição para doenças mentais na Inglaterra em meados de 1860, foi o pioneiro na descrição dessa condição médica. Down teve papel ativo nessa Instituição,
melhorando as condições dos pacientes que ficavam internados e, com suas observações, publicou um ensaio falando pela primeira vez sobre a síndrome.
Entretanto, por questões inerentes à época, o conceito de “raça”, muito difundido nesse momento histórico, foi usado para explicar as características dos pacientes com a Síndrome de Down, além de teorias racistas e eurocêntricas. Ainda, foi utilizado o termo “mongol” para descrever essas pessoas, o qual não deve ser mais empregado hoje. Foi apenas um século depois, em 1959, que outro médico, Jerome Lejeune, demonstrou que, na verdade, a síndrome é decorrente de uma anomalia genética, a trissomia do cromossomo 21, e toda a ideia errônea da questão racial foi deixada de lado.
4- Linfoma de Hodgkin:
Essa neoplasia maligna do sistema linfático leva o nome do médico inglês Thomas Hodgkin, o qual publicou um trabalho em 1832 descrevendo a doença. Nessa publicação, Hodgkin correlacionou o quadro clínico de vários pacientes com aumento de linfonodos e acometimento ordenado 30 anos depois, um novo trabalho sobre esse tema foi lançado por outro médico, o qual reconheceu o pioneirismo de Hodgkin. É descrito que ele fora um médico também dedicado a causas sociais, como a pobreza de povos mais desfavorecidos, fazendo parte de diversas organizações sociais.
5- Manobra de Valsalva:
Essa manobra semiológica consiste em realizar uma expiração forçada com as narinas e boca fechadas. Dessa forma, se estabelece um aumento da pressão intratorácica, que é transmitida ao coração e grandes vasos, tendo assim, diminuição do retorno venoso. O médico italiano a quem essa manobra leva o nome é Antonio Maria Valsalva, reconhecido por seus estudos na área da Otologia, sendo inclusive quem delimitou a divisão ainda usada hoje em “ouvido interno, médio e externo”. E assim, inicialmente essa manobra foi criada como uma forma de melhorar a perda de audição (hipoacusia) e ajudar a eliminar secreções do ouvido médio pelo desvio de ar.
Outros epônimos que levam seu nome são: seio de Valsalva, ligamentos de Valsalva, músculo de Valsalva e antrum de Valsalva.
6- Sinal de Courvoisier-Terrier:
É um achado tardio do exame físico do paciente ictérico, o qual consiste na vesícula biliar palpável e indolor, estando associado principalmente com tumores de pâncreas. Esse sinal semiológico leva o
epônimo do médico Ludwig Georg Courvoisier, um estudioso das vias biliares, que analisou a diferença dessas estruturas conforme a patologia do paciente. Dessa forma, ele definiu a Lei de Courvoisier, que define duas apresentações para a vesícula: a primeira é não palpável, em paciente com coledocolitíase, e a segunda é palpável, em paciente com tumor, principalmente do tipo periampular.
7- Síndrome de Munchausen:
Essa síndrome consiste em um quadro elaborado pelo paciente, em que ele aparentemente está doente de forma grave, com sinais e sintomas que o fazem necessitar de procedimentos e tratamentos desnecessários na maioria das vezes. Diferentemente de outros casos, esse epônimo vem do Barão de Munchausen, um militar que, após sua carreira no exército alemão, iniciou sua aposentadoria. Com isso, ele ficou conhecido por contar histórias de sua época como soldado de forma exagerada e controversa, muitas vezes com façanhas praticamente impossíveis. Alguns séculos depois, um médico atribuiu seu nome à síndrome que se relaciona com “pessoas que viajam em seu imaginário”.
Referências bibliográficas:
Sinal de Courvoisier-Terrier: A temida massa palpável. Disponível em: https://www.sanarmed.com/sinal-de-courvoisier-terrier-a-temida-massa-palpav el-colunistas
XAROPE DE LETRAS. História da medicina e história cultural. Disponível em: <https://xaropedeletrinhas.com.br/>.
Instagram - @med_eponimos. Epônimos em medicina. Disponível em: <https://www.instagram.com/med_eponimos/>.
Comments