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DOENÇAS CARDIOVASCULARES E COVID-19

  • Foto do escritor: Jornal A Sístole
    Jornal A Sístole
  • 22 de ago. de 2023
  • 6 min de leitura


Por Raisa Graça


Há décadas que doenças cardiovasculares (DCVs) têm sido a principal causa de morte no mundo, causando cerca de 17,9 milhões de óbitos anualmente segundo a World Health Organization. Esses distúrbios, que afetam o coração e os vasos sanguíneos, estão atrelados a diversas outras condições já conhecidas. Porém, nos últimos anos, um novo fator tem se destacado: a COVID-19.

A COVID-19 é definida como uma infecção respiratória aguda causada pelo coronavírus SARS-CoV-2, potencialmente grave e de elevada transmissibilidade. Essa doença foi responsável por drásticas mudanças sociais, econômicas e culturais em todo mundo, sobretudo na área da saúde, em que afetou não só profissionais e pacientes em si, como alterou a manifestação de certas enfermidades, tal qual as doenças cardiovasculares. Portanto, é imprescindível analisar e entender alguns dos principais pontos comuns entre essas condições.

No Brasil, durante 2020, o número de óbitos hospitalares por DCVs foi ligeiramente inferior ao esperado com base nos anos anteriores – cerca de 1,5% –, e o número de óbitos domiciliares aumentou consideravelmente, em especial por parada cardiorrespiratória. No entanto, a taxa de letalidade hospitalar por DCVs aumentou cerca de 13% nesse período. Tal cenário condiz com o período da pandemia, em que houve isolamento social, redução no número de pacientes que procuraram atendimento médico, diminuição das internações e procedimentos por doenças cardiovasculares, pacientes hospitalizados mais graves e, consequentemente, aumento da letalidade hospitalar por DCVs.

Atualmente, mais de 3 anos após o início da pandemia, sabe-se que a COVID-19 pode tanto ser assintomática quanto apresentar um amplo espectro de sinais e sintomas, entre eles as manifestações cardiovasculares. Isso acontece porque o vírus invade as células humanas através do receptor da enzima angiotensina 2, presente em cardiomiócitos , ou seja, o coração pode sofrer, além de comprometimentos indiretos, a ação direta do patógeno. Dessa forma, a capacidade do vírus de afetar o sistema cardiovascular pode resultar em diversas manifestações no tecido cardíaco, como lesão miocárdica, arritmia, insuficiência cardíaca, miocardite, entre outros, principalmente na presença de DCV pré-existente.

Além do mais, há certos grupos que não podem ser excluídos quando se analisa essas duas condições, sendo um deles a população com Síndrome de Down. A prevalência de doenças cardiovasculares em pessoas com Síndrome de Down é de 40% a 50%, além de terem maior propensão a sobrepeso e à obesidade, e apresentarem alterações nas vias aéreas que facilitam a infecção pelo vírus.

Tais aspectos caracterizam esse grupo como mais suscetível à infecção e a complicações pela COVID-19, o que chamou atenção de instituições brasileiras para a causa, como a PUC-Campinas, a Fundação Síndrome de Down e a Sociedade Brasileira de Cardiologia. Vale ressaltar que doenças cardiovasculares e a doença causada pelo SARS-CoV-2 apresentam fatores de risco comuns, como idade avançada, tabagismo, obesidade, hipertensão arterial e diabetes. Ademais, DCVs em si são fatores de risco para a COVID-19.

Outro grupo relevante é a população pediátrica. Embora os sintomas e sinais da COVID-19 sejam mais leves em crianças, a síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (SIM-P), que ocorre em menos de 1% dos casos, apresenta, entre outras características, níveis elevados de marcadores de lesão do miocárdio, podendo envolver choque, arritmia cardíaca, dilatação da artéria coronária, elevação da troponina, etc.

Além disso, um estudo conduzido na América Latina, com participação de centros brasileiros, mostrou que crianças com COVID-19 e envolvimento cardiovascular tiveram apresentação clínica mais grave, com maiores alterações laboratoriais, instabilidade hemodinâmica, necessidade de drogas vasoativas e maior número de internação em unidade de terapia intensiva.

Também, a fim de controlar o aumento de casos de COVID-19, medidas de restrição social – como o fechamento de escolas, espaços públicos e programas de atividade física – foram responsáveis por diminuir a prática de exercícios em crianças e adolescentes durante a pandemia. Isso tem uma relação direta com doenças cardiovasculares, pois o sedentarismo está entre os principais fatores de risco para esses quadros clínicos.

Ainda, é importante destacar que, no geral, indivíduos com DCVs apresentam taxa de morbidade até 10,5% após infecção por covid-19, e duas condições se destacam nesse sentido: a injúria miocárdica, que se mostrou um potencial marcador de mortalidade na

COVID-19, e as arritmias cardíacas, que foram observadas em 44% dos pacientes internados em unidades de terapia intensiva.

Para além de fatores biomédicos, atributos sociais, regionais e econômicos também conectam DCVs e o novo coronavírus. Pesquisas brasileiras apontam que a doença causada pelo Sars-CoV-2 foi responsável pela maior parte dos casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave – que pode ser causada por complicações da COVID-19– no Norte e no Nordeste, regiões mais pobres economicamente, ao contrário do Sul do país, região mais rica, onde foi observado somente 39,9% dos casos. Além disso, municípios com maior vulnerabilidade social apresentaram maiores taxas de mortalidade, o que aponta a desigualdade social como fator determinante da COVID-19. Semelhantemente, complicações de DCVs, em diversas pesquisas, são apontadas como mais frequentes em grupos socioeconomicamente desfavorecidos, como em famílias de baixa renda, pobres e em condição de rua, uma vez que tais indivíduos teriam menos acesso a medidas preventivas, paliativas e a um tratamento de qualidade.

Assim, tendo em vista o exposto, é possível afirmar que as doenças cardiovasculares e a COVID-19 estão relacionadas entre si de diversas formas, de fatores de risco comuns a características socioeconômicas. Dessa maneira, não se pode esquecer que doenças cardiovasculares ainda são a principal causa de morte mundialmente e que, apesar do afrouxamento das medidas restritivas e do avanço da vacinação, a COVID-19 ainda é considerada uma pandemia pela OMS e, portanto, ainda deve ser motivo de preocupação.


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