Diretriz da OMS sobre uso de adoçantes: Aliados ou inimigos da saúde?
- Jornal A Sístole
- 20 de jul. de 2023
- 4 min de leitura

Por Leandro Oliveira
Atualmente, há uma vasta riqueza de evidências atestando que uma alimentação nutricionalmente balanceada é ponto importante para evitar o desenvolvimento de doenças crônicas não-transmissíveis ligadas a fatores dietéticos, como hipertensão arterial sistêmica e obesidade. Esse grupo de patologias, que compõem as principais causas de morte ao redor do globo, têm como grande fator predisponente o consumo de carboidratos simples. Nesse sentido, o açúcar refinado de mesa surge como um dos principais “vilões”, agregando alto valor calórico sem, no entanto, adicionar valor nutricional aos alimentos que adoça.
Mesmo entre indivíduos que necessitam restringir o consumo de doces e carboidratos para atender a metas terapêuticas, como pessoas com diabetes mellitus, e aqueles que buscam viver “uma vida mais saudável”, com menor consumo de calorias, o desejo pelo sabor doce continua a existir: afinal, quem não gosta de uma bela sobremesa? E, nesse viés, os adoçantes dietéticos, isto é, produtos formulados para utilização em dietas com restrição de sacarose, frutose e glicose (tipos de carboidratos), se tornaram alternativas (ainda que nem sempre viáveis financeiramente) para quem deseja adoçar alimentos e bebidas de forma menos calórica ou para pacientes com doenças como diabetes mellitus.
Mas, será que eles são tão saudáveis assim? Segundo a diretriz Uso de adoçantes dietéticos (tradução livre), lançada pela Organização Mundial da Saúde em 15 de maio de 2023, a resposta é: depende. O Jornal A Sístole irá expor um pouco do que se discute nessa diretriz para trazer informação à tona para o leitor sobre o assunto em 5 pontos.
1- Qual é a recomendação da OMS sobre o uso de adoçantes dietéticos?
A Organização Mundial da Saúde sugere que adoçantes dietéticos não sejam utilizados como meios de controle do peso, nem de redução de risco de doenças crônicas não transmissíveis. Isso significa que pessoas sem necessidade de restrição de açúcares não se beneficiam do uso de adoçantes para os cenários acima levantados em comparação com as demais diretrizes sobre alimentação saudável da OMS, destacando-se a orientação de reduzir o consumo de açúcar refinado.
Porém, a OMS também ressalta que a recomendação é considerada condicional, no sentido de que as evidências levantadas até o momento da publicação do documento não eram suficientes para afirmar que os prós de abandonar o uso de adoçantes dietéticos em pessoas sem restrição de açúcares superam os contras em todos os cenários, e que cada país deve analisar os benefícios e os riscos levando em conta sua própria conjuntura em saúde pública.
2- Como a OMS chegou a essa conclusão?
A OMS utilizou evidências de meta-análises e revisões sistemáticas que analisaram ensaios clínicos randomizados e controlados, e estudos longitudinais prospectivos. Em seguida, os achados foram discutidos entre o Subgrupo para Dieta e Saúde e grupos multidisciplinares internacionais de pesquisadores especialistas no tema para graduar e averiguar a força das evidências de acordo com metodologia cientificamente validada (GRADE).
3- O que a OMS observou que a levou a esta recomendação?
Alguns fatores observados pela OMS na produção desta diretriz estão
destacados a seguir:
A maioria dos estudos de curto prazo em adultos revelou que o uso de adoçantes dietéticos pela população estudada levou a um menor índice de massa corporal (IMC) se comparado ao uso de açúcar refinado.
Já a longo prazo, observou-se um efeito inverso, com aumento do IMC e consequente maior incidência de obesidade e aumento do risco para o desenvolvimento de diabetes mellitus tipo 2, doenças cardiovasculares e incremento nas taxas de mortalidade.
Em momento algum houve redução benéfica na porcentagem de gordura corporal atribuída ao uso dos adoçantes.
Com relação às crianças, foi observada uma pequena redução na incidência de cáries dentárias no uso do adoçante stevia.
Em gestantes, houve indícios de risco aumentado para parto prematuro relacionado ao maior uso de adoçantes dietéticos durante a gravidez, e estudos longitudinais prospectivos reportaram associação entre o uso dessas substâncias na gestação e aumento do risco de asma, alergias e pior função cognitiva.
4- Então devo parar de utilizar adoçantes dietéticos?
Segundo a própria OMS, a vasta maioria das evidências encontradas durante a análise são fracas, o que significa que ainda são necessários mais estudos para compreender a extensão das correlações anteriormente expostas. Entretanto, com o que há de arcabouço experimental até agora, é possível afirmar que faltam evidências para justificar o uso de adoçantes dietéticos para controle de peso ou para evitar patologias do metabolismo em pessoas sem doenças crônicas, e que há um possível risco de maior incidência de doenças crônicas não transmissíveis mediante uso dessas substâncias.
Portanto, A OMS afirma que dar preferência aos açúcares naturais - como os encontrados em frutas - e evitar o uso de açúcar refinado, acompanhada de uma dieta nutricionalmente balanceada, é uma alternativa viável, efetiva e comprovadamente segura, que deve ser preferida aos adoçantes dietéticos até o presente momento.
5- E com relação às gestantes e crianças?
Apesar dos achados incisivos, o número de estudos feitos nessas populações que foram utilizados pela diretriz foi baixo, o que prejudica a formulação de
recomendações mais consistentes.
Considerando o que foi levantado, a OMS extrapolou para esses grupos a recomendação de evitar o uso de adoçantes dietéticos para controle do peso e do desenvolvimento de doenças crônicas não-transmissíveis.
ALERTA: A ANVISA e o Ministério da Saúde ainda não se manifestaram sobre a diretriz da OMS. Consulte um profissional de saúde caso tenha dúvidas sobre o uso dos adoçantes antes de alterar seu padrão de consumo.
Referências Bibliográficas
● Department of Nutrition and Food Safety of the World Health Organization (WHO), WHO Steering Group, Guideline Development Group. Use of non-sugar sweeteners: WHO guideline. Geneva: World Health Organisation (WHO), 2023. 90 p. Disponível em: <https://www.who.int/publications/i/item/9789240073616>. Acesso em: 17 ago. 2023.
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