A importância da retomada do programa Mais Médicos
- Jornal A Sístole
- 18 de mai. de 2023
- 3 min de leitura

Autora: Helena Vieira Goudard
Art. 196 da Constituição Brasileira de 1988
“A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.”
Na teoria, a saúde é garantida pela Carta Magna do país mas, na prática, ela se sustenta como um privilégio das classes econômicas dominantes e moradores dos grandes centros urbanos: efetivamente, ainda não ocorre a universalização do acesso e promoção de um Sistema Único de Saúde (SUS) justo e equânime.
Em 2013, visando reduzir o vazio assistencial deixado nas periferias e nas áreas mais afastadas, o governo federal lançou o programa “Mais Médicos”, que previa a contratação de profissionais. Eles deveriam atender às regiões marginalizadas, de extrema pobreza, e resgatar o acesso da população à saúde, principalmente na atenção primária, que resolve cerca de 80% das demandas dessa área. Esse primeiro atendimento, realizado nas Estratégias de Saúde e Unidades Básicas de Saúde, é responsável pelo acompanhamento da situação de saúde da população, prevenção e redução de agravos.
O programa divide-se em três eixos: a contratação emergencial de médicos; a expansão do número de vagas para os cursos de Medicina e residência médica em várias regiões do país, além da implantação de um novo currículo com uma formação voltada para o atendimento mais humanizado (com foco na valorização da Atenção Básica); e ações voltadas à infraestrutura dos serviços de atenção básica.
Entretanto, o projeto não concretizou parte das melhorias infraestruturais previstas, assim como políticas de permanência, mestrado ou aperfeiçoamento, o que provocou grande evasão. E assim, os profissionais abandonaram o cargo em busca de capacitação e qualificação, melhores condições de trabalho, de locomoção e retorno financeiro.
Diante disso, a escassez, principalmente de médicos, não foi mitigada como deveria, e o atendimento a essas populações seguiu sofrendo com a ruptura do cuidado, a falta de longitudinalidade nos acompanhamentos, a dificuldade para a criação de vínculos entre o profissional e o território e a constante dúvida: “haverá consulta amanhã?”
A defasagem continuou para a porta de entrada do SUS.
Mesmo enfrentando obstáculos, o programa Mais Médicos está presente em mais de 4 mil municípios de todo o país, e em 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs), garantindo assistência para mais de 63 milhões de usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) e estendendo as mãos para aqueles que, de outra forma, estariam ainda mais marginalizados. Alguns estudos demonstram uma redução expressiva nas taxas de mortalidade infantil e neonatal nos municípios que receberam médicos do programa, em relação aos que não receberam. Essa diferença estatística de mais de 20% ocorreu principalmente em cidades que se encontravam em maior situação de vulnerabilidade. Observou-se, também, impacto positivo nas internações a partir do terceiro ano de implementação, havendo redução de Internações Sensíveis à Atenção Básica (aquelas que podem ser evitadas com atendimento e acompanhamento de profissionais nos serviços).
Assim, o programa agora conta com novidades, para tentar enfrentar as dificuldades estabelecidas pela construção histórica do país: o passado de colônia de exploração, escravocrata, em que as classes sociais, a cor da pele e o acesso o direito à cidade eram - e continuam sendo - determinantes para o acesso à saúde.
As mudanças abrangem oportunidades educacionais, benefícios, proporcionais ao valor mensal da bolsa, para atuarem nas periferias e regiões mais remotas, incentivos para a fixação dos profissionais e avanços na licença-maternidade e paternidade. Além disso, há uma ordem de preenchimento de vagas, que privilegia médicos brasileiros formados no país, logo depois, viriam os brasileiros formados no exterior e os médicos estrangeiros, sem necessidade de revalidação do diploma. Diante das críticas de entidades médicas, é importante ressaltar que essas vagas ainda são preenchidas majoritariamente por brasileiros com formação no Brasil, e só passam para os próximos grupos se não houver quantitativo. Destarte, a necessidade de revalidação do diploma tornaria o processo burocrático e dificultoso e poderia afastar profissionais interessados no programa - e a população tem urgência.
“O nosso objetivo não é saber a nacionalidade do médico, mas a nacionalidade do paciente, que é um brasileiro que precisa de saúde” - Luiz Inácio Lula da Silva
REFERÊNCIAS
http://maismedicos.gov.br/noticias/359-mais-medicos-estudos-comprovam-que-programa-re duziu-mortalidade-infantil-em-mais-de-20
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2023/marco/governo-federal-anuncia-a-reto mada-do-programa-mais-medicos
“Brazil’s more doctors programme and infant health outcomes: a longitudinal analysis”, publicado na Human Resources for Health em agosto de 2021.
“Impact of Brazil’s More Doctors Program on hospitalizations for primary care sensitive cardiovascular conditions”. SSM Population Health, 2020
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